Ele não usa sapatos, dispensa as sandálias e não é fã de água doce. O habitat do sergipano José Martins Ribeiro Nunes, o Zé Peixe, é a água salgada. Homem franzino, de 1,60 metro de altura, 78 anos e pouca conversa, Zé Peixe fez seu nome ultrapassar, e muito, a barra do canal de Aracaju, onde trabalha desde 1947.
Hoje, Zé Peixe é conhecido, reverenciado e aclamado por marinheiros do país inteiro. A maestria de Zé Peixe consiste em receber os navios em alto mar e guiá-los até a atracação no porto e vice-versa, tal como qualquer prático, evitando as armadilhas dos canais. Isso seria normal não fosse o fato deste senhor fazê-lo a nado. Para alcançar os navios, ele pega carona em alguma embarcação e desce a seis quilômetros da costa, na Boca da Barra. Nada até uma bóia de sinalização, onde espera a chegada do navio. Quando o navio chega, ele é içado a bordo e assume a pilotagem até o porto. O mais impressionante é o processo inverso, ao retirar o navio do porto. Normalmente, um prático usa um barco de apoio para retornar a terra. Mas esse não é o caso de Zé Peixe. Ele segue com o navio até a Boca da Barra e ali avisa ao comandante do navio que descerá da embarcação mergulhando! Salta, então, de alturas muitas vezes superiores a 40 metros, deixando atônitos capitães e marinheiros.
Zé Peixe nunca errou em sua profissão e conhece o mar de Aracaju como a palma da mão. Sabe a profundidade das águas pela cor e por variações marítimas de temperatura. Hoje está aposentado, e continua trabalhando, embora não se importe com o dinheiro que recebe. Seu salário é distribuído por ele a pedintes, velhos pescadores que não podem mais trabalhar e não têm nenhum tipo de amparo, catadores de caranguejo que não tiram seu sustento do mangue ou pobres que caíram na infelicidade da bebida e esmolam pelas ruas. O interessante é que ele mesmo não tem nada, sua casa é um casebre entulhado de tudo que juntou na vida – ele não joga nada fora!
Zé Peixe virou biografia (não autorizada) em Aracaju. A obra deveria ser distribuída gratuitamente, mas os autores ignoraram o pedido da família e colocaram à venda. Agora, uma segunda biografia, desta vez oficial, está a caminho. Quem prepara é sua sobrinha-neta Luciana Shunk.
Zé Peixe não fuma, nunca bebeu álcool, dorme às 8 da noite e acorda quando o dia ainda não amanheceu. Apenas abre um largo sorriso quando parte para o mar. Longe dele, sente-se um peixe fora d’água, mas, nele, é um feliz homem sem sapatos.
por Al. Serpa

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Comentários
19 de julho de 2010 às 15:08
Viva o Zé Peixe.